Os ramos
Os meus tios eram sempre os meus tios. Exceto na altura da Páscoa, em que um dos irmãos do meu pai e a irmã da minha mãe eram os meus padrinhos. A minha cabecinha aluada de criança achou até certo ponto que ser tio e padrinho era a mesma coisa, era um conceito que eu não dominava. A minha ama explicava-me que os padrinhos eram pessoas muito importantes, eram eles que tomavam conta de nós se os pais morressem, como tinha acontecido com ela. E eu pensava, pois, mas isso era antigamente e nos filmes em que os pais morrem é isso não podia acontecer comigo. Também achava fofo o facto destas palavras serem diminutivos. Seria uma padrinho um padre pequenino? Adiante. No fim de semana antes da Páscoa ia dar o ramo ao meu padrinho, normalmente um vaso com alguma flor da época (talvez uma orquídea). Não sentia como algo especial, porque quase todos os domingos ia almoçar a casa dos meus tios. Parecia que aquele ritual era ali enfiado a martelo. Então eu levava o vaso e ele ia buscar as colheres. E dizia, agora vou-te dar o folar. Nem tenho palavras para descrever a abstração que isto representava no meu cerebrozinho! (Mas o folar não é um bolo??) E lá vinha ele com a caixa do serviço de colheres de chá e café em prata e a cada ano me dava uma de chá e uma de café. Lembro-me de agradecer e tentar não parecer muito desiludida. As colheres repousavam uns segundos nas minhas mãos pequeninas e depois entregava-as à minha mãe.
Outra coisa que me inquietava era o facto de a minha madrinha ser a minha tia que era casada com o meu padrinho. Que desorganização! A minha madrinha era a irmã da minha mãe, com quem tinha uma relação muito próxima e cúmplice pelo que quando a minha mãe dizia, “vamos levar o ramo à madrinha”, ainda demorava uns minutos a perceber que ela estava a falar da minha tia Luísa. A minha tia Luísa não tinha colheres de prata para me dar. Dava-me walkmans e cassetes, roupas da cenoura, eventualmente um brinquedo. E autocolantes ou pins antigos da festa do avante. E nem sei se ela ligava ao ramo. Mas ligava a mim.
A minha tia Luísa nunca teve filhos. Ela adorava-me e eu sentia mesmo que ela gostava de mim. Já no final da adolescência nunca se importava que eu lhe cravasse um cigarro ou dez eurinhos para ir sair, como se me estivesse a comprar umas fofocas sobre namoricos que lhe ia contando. Fui adultecendo e nunca nos afastámos. Viveu com emoção o meu casamento, a minha gravidez e chegada da minha filha. Uma doença horrível isolou-a a partir da pandemia e passou o último ano da sua vida hospitalizada. Apesar de a visitar todas as semanas, na semana antes da Páscoa fiz questão de lhe levar um desenho de uma flor desenhada pela minha filha. Mesmo dentro de um quarto de hospital, frustrada com uma doença que a transformou num corpo frágil e débil, conseguia que eu me sentisse amada. Um dia cheguei e ouvi-a falar sobre mim à enfermeira que estava a acabar de lhe secar o cabelo. A elogiar as coisas que eu fazia, e que além de sobrinha, era também sua afilhada. Ser afilhada é uma coisa importante. E ouvir falar bem mim atrás de uma porta foi como sentir-me bafejada de amor.
Ainda tenho uns dias antes da Páscoa para ir levar um vaso ao meu padrinho. Já falhei o domingo certo mas sei que ele não se importa. Que bom que temos estas datas que ainda nos obrigam a relembrar recortes engraçados e comoventes. E que bom que um assalto pela altura da minha adolescência lhes levou as colheres e eu passei a receber uma nota de 50 nesta quadra.

