Nossa Senhora
Eu tinha aproximadamente a idade que tem hoje a minha filha, 13 anos e uns meses, quando entrei no mundo da Madonna. Eu já tinha ouvido falar desta cantora polémica, na verdade mais pela polémica do que outra coisa. Mas a faísca aconteceu quando vi o videoclipe de “Frozen” pela primeira vez na MTV. Fiquei completamente hipnotizada. Andei semanas a pedir à minha mãe o CD. Entretanto saiu outro single. Com o mesmo nome do álbum, “Ray of Light”. E assim duplicavam as oportunidades de apanhar uma das duas canções a dar na MTV. “Frozen” era sombra e “Ray of Light” uma luz de cauda de cometa. O meu eu adolescente nem sabia processar a euforia que sentia cá dentro quando via estes dois videoclipes da cantora com a idade da minha mãe (mas que não se parecia em nada com a minha mãe) e pela qual as minhas amigas não demonstravam interesse. Isto porque eu tinha 13, 14 anos, Madonna já tinha passado os 40, tinha acabado de ser mãe pela primeira vez, já tinha sido excomungada duas vezes e já “estava acabada”. Lá consegui o cd e banhei-me naquele pop espiritual (é o álbum da fase yoga cabalística da rainha) meses a fio.
À medida que fui crescendo, a Madonna continuou comigo. A normalização da internet permitiu-me longas pesquisas sobre Madonna Louise Veronica Ciccone, que chegou a Nova Iorque com 30 dólares no bolso. Acabei por finalmente encontrar uma amiga que também era fã e até fazíamos sucesso em duetos no karaoke (ahah). Cantávamos sempre a “Like a Prayer” e, recentemente, no casamento dela até recriámos esses momentos de cantoria.
Em 2004 fui sozinha a Lisboa para a ver (eu que tenho medo de ir sozinha à loja do cidadão) depois de ter comprado bilhetes a um estranho com quem combinei pela internet encontrar-me no NorteShopping. Personalizei uma t-shirt com a frase “Strike a Pose” e filmei o concerto quase todo com a minha sony cybershot. No final do concerto comprei um poster que nunca viu a parede, está enrolado dentro do canudo e tem-me acompanhado por todas as casas por que passei.
Em 2005, saiu o álbum “Confessions on a Dance Floor”. A minha obsessão pelo videoclipe da música “Sorry”, filmado numa típica pista de patinagem dançante americana, levou-me a fazer disso tema de uma épica aula de educação física assistida na faculdade. Disclaimer: eu não sabia andar de patins. O que aconteceu nessa aula deixo à vossa imaginação.
Este sábado de manhã, quando abri o Instagram, a primeira coisa que vi foi a aparição surpresa da deusa no concerto da Sabrina Carpenter no Coachella. Cantavam “Like a Prayer” enquanto desfilavam pelo palco de mão dada. Foi como se desse a mão à minha versão, com 13 anos, com 19 anos, com 40 anos. Uma energia que desafia o tempo, as tendências, as indústrias. O público estático de telemóvel em punho, sem perceber que é impossível guardar de verdade aquele momento.
Já estava em lágrimas quando reparei que a minha filha estava a observar-me enquanto ria e abanava a cabeça. Ela conhece-me bem e sabe que passo a vida a emocionar-me com coisas aleatórias que vejo na internet. “ O que estás a ver mãe?” Chamei-a e estivemos as duas a cantar a “Like a prayer” aos berros. Ela ainda não sabe sobre o que é aquela música. E vamos deixar assim por enquanto.


A Madonna é simplesmente a maior de todos os tempos. Esse álbum Ray of Light é uma preciosidade - dos melhores trabalhos dela, numa altura em que já a davam por ultrapassada. Foi single atrás de single de sucesso e a minha música favorita do álbum nem single chegou a ser. Curiosa para ver o que sai deste Confessions on a Dance Floor II que aí vem.