Memórias soltas
pensamentos soltos
A aleatoriedade de quais eventos da nossa vida ficam ou não gravados na nossa memória é algo que me atormenta. Talvez atormentar seja um bocado forte. Pronto, intriga-me. A primeira vez que pensei nisso foi a amamentar a minha filha, era ela recém-nascida. Comecei a pensar na perfeição daquele momento, em como o queria guardar numa caixinha… e comecei a chorar a pensar que ia esquecer muitos daqueles momentos que estava a viver naquelas semanas. Lembro-me de imensas coisas sem importância nenhuma, como as letras das músicas das Mamonas Assassinas. Por outro lado continuo a usar o Waze para não me enganar na saída para a escola onde estou a dar aulas desde janeiro.
Sempre que apanho num documentário ou podcast, algum especialista a falar sobre o tema, ouço com atenção, e tento descortinar os mecanismos da memória a curto e longo prazo, o processo que acontece no hipocampo, como a estimular, como é complexo, mas não consigo deixar de achar que há algo aqui que talvez pertença ao sobrenatural. Como é que memórias enterradas profundamente no subconsciente podem ainda ter impacto na maneira como abordamos a vida? Como encarar relatos de pessoas que dizem ter memórias de sítios onde nunca pisaram? Até de vidas passadas (eu sei, é território pantanoso e não queria entrar por aí mas que pode ser fascinante, pode…).
Noutro dia, ouvi maravilhada, uma pessoa a contar de tinha memórias de bebé, de estar a ser embalada. Que delícia.
E aquela sensação de conhecer alguém
pela primeira vez mas ela traz uma familiaridade… que até parece que nos lembramos dela sem nunca a ter visto. Ou ouvir uma música pela primeira vez e ir procurar em que ano foi lançada porque havíamos de jurar que já conhecemos há anos. Ok, aqui pode tratar-se de um caso de plágio…
Espanto-me com curiosidades como memórias falsas e o Mandela Effect ( todos temos a certeza que o senhor do Monopoly tinha um monóculo, não era?).
Também tenho muito essa sensação das memórias falsas em conversas com os meus pais acerca da minha infância. Para eles, muitos dos relatos das minhas vivências familiares, são fruto da minha imaginação.
Muitas vezes, quando me encontro com amigas de antigamente, passamos mais tempo a relembrar eventos divertidos do passado do que de coisas da atualidade. Devíamos esforçarmo-nos mais para criar novas memórias.
Assusta-me perder a memória. Acho que é um medo comum. É sempre muito perturbador quando somos confrontados com alguém conhecido a padecer de Alzheimer ou outra demência. É muito desconfortável assistir a alguém a perguntar por parente já falecidos, a deixar de reconhecer as pessoas, até objetos.
Já acordei assustada sem me lembrar de nada depois de uns copos copos e ouvir incrédula as histórias da noite anterior da boca de amigas minhas. Às vezes tinha pena de não me lembrar, outras acabava por achar que o esquecimento era uma benção.
O acontecimentos na minha vida após o COVID e os confinamentos parecem-me muito mais desagregados e parece que a minha memória não funciona tão bem a organizar a informação desde aí. Agora que já passaram 6 anos, parece-me que 3 meses de confinamento não é assim tanto mas foi tão violento! Pareceu uma eternidade! Lembro-me de sentir várias vezes que não ia aguentar mais… especialmente por não saber quanto mais tempo iria ter que aguentar. A nossa percepção coletiva de tempo ficou alterada, não sou só eu que sinto pois não?
Associar nomes a caras de pessoas que conheci nestes últimos anos é um desafio. Se conviver com as pessoas com frequência acabo por saber, claro, mas se me apresentarem alguém hoje, não esperem que daqui a 2 semanas eu me vá lembrar.
O passar do tempo pode não fazer esquecer completamente um acontecimento mas ele fica diluído. E à medida que os anos passam, o mar dos acontecimento é cada vez maior e as memórias vagueiam como espuma. Às vezes vem um cheiro que traz uma. Outras vezes uma música. Um objeto guardado que já nem me lembrava que tinha.
Um destes dias peguei num casaco guardado desde o ano passado. A meio do dia, meti as mãos nos bolsos e, do lado direito senti um objeto que o meu tacto reconheceu imediatamente: um rolinho de sacos plásticos, daqueles de apanhar os cocós dos cães. Ora, a minha cadela morreu em junho do ano passado, e nesta manhã de quase primavera voltei por segundos aos nossos passeios. Que saudade.



Às vezes tenho umas brancas com coisas básicas, o que me chateia, sobretudo quando estou a meio de uma conversa, e desejo ter mais memória. Mas há pouco tempo vi um documentário sobre o cérebro no qual davam o exemplo de pessoas com memória extraordinária, muito acima da média - havia o relato de uma senhora a descrever como um episódio traumático do passado ainda hoje a fazia sofrer emocionalmente - e pus-me a pensar que para ela o “tempo não cura tudo” - e ainda bem que nos vamos esquecendo de algumas coisas, porque esquecer acaba por ser uma espécie de mecanismo de defesa.
E por acaso não te lembras do nome do documentário?